06/08/2012

Receita pra deixar doer


Eu me reinvento. Misturo todas as minhas lembranças, só as boas, e aumento a dose da alegria nelas...
Espero cinco minutos. Vou pra frente do espelho. Me vejo. Me olho. Me sorrio. Forço o sorriso uma vez. Forço o sorriso duas. E mais algumas. Até parecer patética. Até poder rir de verdade, mesmo que de mim.
Deito. Ouço música. Espalho palavras no teto. Mudo as melodias. Canto sem ritmo. Choro um pouco.
Penso no que pode ser melhor. Em tudo que já foi bom.
Me desligo. E não ligo pra ninguém (só pras palavras que espalhei no teto).
Brinco de criar laços. E desfaço alguns nós.
E sinto. Sinto muito por tanta coisa...
E sofro.
E choro mais.
E lembro.
E dói.
E deixo doer.

Deixo o pesar se transformar no que ele quiser.
Não perco o controle. Ou perco. Tanto faz!
Abraço o travesseiro. Me agarro à minha dor. Soco o vento. O tempo. E choro mais. Até o sono me pegar.
Tão teatral. Tão igual. Tão mesmo àquela outra perda. E ainda assim parece novo. Pareço oca. Pareço nunca ter me sentido pior.
Até a cara amassada do dia seguinte parecerá nova.
Então, deixo a dor ser dor.
(Não dá pra ser leve e feliz sempre.)
Serei apenas eu, muito doída, e está de bom tamanho.

(O que não quero mais é parcelar minhas dores em cinco vezes com juros.).

                                                                                                                                                                               Ana Nunes